Thursday, October 30, 2008

Durante algum tempo mantive este blog desativado, postando em um outro. Escrevo, não para ser lido, mas para puro fluxo de consciência. É desabafo, creio. Resolvi voltar a postar. Não que eu queria, mas é bem mais barato do que pagar psicólogo.

Achei um post que eu escrevi alguns anos atrás, e que eu gostaria de publicar aqui.




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Num vôo de Londres a Paris, sento-me ao lado de um senhor de cara cisuda e firme, olhos de um azul claro, vestido de terno beje e camisa social azul. Finjo que elas combinam com as calças verde estranho e me vejo, quase que num passe de mágica conversando com esse senhor russo de 40 anos, cujos adjetivos diversos que perfeitamente lhe caberiam, a verdade me impede de citar, simpático.

Olha pra mim e pergunta meu nome, e minha nacionalidade, digo que adivinhe a última e ele segue. Aliás, aqui cabe um parenteses. Fico intrigado como as pessoas são incapazes de destinguir de onde eu sou. Tenho uma mistura de raças é verdade. Sou alvo, tenho olhos de cor estranha, meu sotaque é Britânico, meu humor, mais ainda, mas tenho cara de judeu, ou árabe, o que preferirem, me visto como Francês e sou tão mal humorado quanto um Alemão, mas minha alma é total Brasileira. Adoro um barraco e genteBrasileira, embora em rodas de amigos, a mentira me impeça de assumir. A conversa segue e, uma vez em que o KGB da Silva tem a sua curiosidade saciada, começa a usual sabatina de perguntas a respeito do Brasil. É verdade que em Português ha palavras em que não se é possível traduzir, me pergunta o tal sujeito fugindo das minhas curiosidade nunca saciadas. Sim, respondo. Eu e ele quase em sintonia e em coro citamos: saudade. E o tal Russo me pergunta: Mas o que é saudade? Me explica! Pois em quase duas horas de vôo, não adiantou. Não consegui explicar.


Chego em Paris e no meu Diskman, ouço uma cópia de um CD da Cesária Évora, cantante do Cape Verde, a quem os créditos da cópia ilegal eu devo a minha vó, Ayalla, proprietária do original. Em uma música cantada em uma mistura de Creole e Português de Portugal, ela grita Sodade! Mas que raio de saudade é essa que a palavra eu conheço mas não consigo descrever?


Ainda é cedo, passa levemente do meio dia. O sol está em cima e ajuda acalmar o frio um pouco. As pessoas não sorriem. Normal pra Paris. Mas o dia esta bonito. Saio de onde estou alojado e caminho várias quadras até a Gare de Lyon. Pego a linha Rouge em direção a La Défense. Eu em mãos tenho um dicionário Inglês-Francês, pois me faltam palavras, sempre. Ao meu lado senta-se uma senhora, claramente Francesa, que em Inglês puxa assunto comigo. Adivinhem que pergunta ela me fez. Desta vez já parti e disse, sou Brasileiro. Oh, me diz ela, nem parece. Elogio penso eu? Deixa pra lá. Questiona-me onde estou indo e ao que respondo que para Montmatre, ela grita que estou indo para o lado errado. Rio, muito e, lhe explico que acho mais fácil fazer esse caminho. Eu, para mim, sabia que deveria descer em Les Halles e pegar outra linha até Barbès. E de lá caminhar mais cinco ou seis quadras até a Sacre Coeur. Bingo. Um a zero pra mim, penso. Ela sorri de canto, claramente irritada pela minha sagacidade geográfica, ao que me exclama. Só se o senhor estiver planejando passar a tarde na Champs Elysées, cavalheiro. Parece que Les Halles já passou. Merda falo em bom Português. Despeço-me da olho-grande Francesa e desço na Charles de Gaule, pego outra linha e desço em Anvers. Duas quadras até a Sacre Coeur, três a menos. Bingo, dois a um pra mim. Crétin!


Subo as escadas, e aquelas árabes nojentos querendo me vender coisas que eu serei obrigado a comprar caso as toque. Perco o folego correndo as escadas antes que eles me joguem uma bomba. Brincadeirinha. Odeio igrejas. Mesmo. Acho a arquitetura bonita e tal, mas me recuso a pagar por velas e tirar fotos de carola. Meu interesse na área é a Rue des Abbesses e a Place du Tertre. Depois do Boule Miche e Boule St Germain a parte mais legal de Paris. Sento-me num café de esquina, é inverno e estou sozinho. Mas da minha mesinha, sobre cuja a cadeira da frente apoio os meus pés, estou em aguardo à minha baguette de presunto de parma e meu café, que custarão, com certeza, mais do que meu orçamento para café me permite. Foda-se, de lá sou capaz de ver o domo da Catedral. O sol já não está tão forte, e é impressionante como me sinto só. No recanto da minha solidão começo a pensar em todas as pessoas que poderiam estar comigo naquela hora. Um amigo querido, meu irmão chato, meu pai ralhador, minha mãe mandona, meu avô, meus avôs, minhas vós. Minha vó.


Minha vó materna sempre foi do tipo desbravadora, européia, culta, viajada. Posso parecer feminista, mas embora seja homem, sempre achei as mulheres da minha família infinitamente mais fortes, mais corajosas, mais decididas que os homens. Não tenho intenção de generalizar. As histórias mais engraçadas, as fofocas de família, o gosto pela leitura, pela família, os bons exemplos, as maiores tragédias. Sempre aconteceu com as mulheres. Assim é minha vó materna. Meu exemplo em geral de como deve-se levar a vida.


Começo a me lembrar de alguns anos antes, quando meus pais saiam para os bailes e eu e meu irmão, e não raro meus primos, ficávamos vendo Viva a Noite, comendo sopa de caldo de Galinha, com letrinhas!, no frio do inverno Porto-Alegrense, na casa da minha vó paterna. Começo a me lembrar da minha vó materna, a quem tantas vezes Paris foi-lhe aconchego, referência, sonho, porto-seguro. E minha vó paterna. Lucinda. Começo a me lembrar do cheiro das roupas dela, e de como as mãos velhas, pareciam como papel. De como gritava conosco e como sempre me dava dinheiro entre as cuecas enquanto meus outros primos contentavam-se apenas com as cuecas, mesmo sabendo que os curtos fundos poderiam lhe fazer falta. Me lembro do jeito que ela me olhava quando brigava comigo, de como ela aparecia nos vídeos das festas aqui em casa imóvel, pensando ser foto. Me lembro do rosto dela, dos cabelos brancos e ralinhos, da força de união, dos almoços de Domingo e de quanto eu adoraria te-la ao meu lado, estivesse, na data, viva. Me lembrei principalmente dela, para quem Paris nunca foi um aconchego, referência, sonho, porto-seguro. Estar ali seria um sonho.


La estava eu, comendo uma baguete Francesa, com presunto Italiano, tomando um café certamente Sulamericano, olhando o domo da Sacre Coeur, com minha pela alva, com olhos de cor indeterminada, com meu sotaque Britânico, com meu humor, ainda mais, com minha cara de Árabe/Judeu, vestido como Francês e tão mal humorado como um Alemão, sentindo falta da minha vó Brasileira, que jamais lá pos os pés e da minha Européia, a quem tantas vezes lá os pos e tantas mais, se Deus quiser, porá.


E algumas horas mais tarde, tive a resposta do que era saudade. Se eu estava lá e pudi sentir todas essas coisas, foi porque a velha Lucinda me ensinou a ser gente, e a velha Ayalla de que o limite do mundo é do limite da minha língua. Acho que se eu encontrar o maldito Russo de novo, eu vou conseguir explicar pra ele, o que é saudade, e até o que é gratidão. Boa semana.