Monday, June 27, 2005

Coisas do Inverno?

Engraçado. Tenho andado com uma sensação muito estranha. É algo que me dá uma idéia de término, de finalização, de conclusão, mesmo que nada em minha vida, em meus projetos, tenha se encaminhado, nos últimos tempos, a um término ou conclusão. Pensei ser morte, mas espero que não!

Sob o pano de fundo, tenho a formatura de minha turma original, não tão original da faculdade que deve se formar em agosto. Milhões de pessoas já me perguntaram e me reperguntaram, pra checar, leia-se mãe, se não me arrependo de uma viagem mal ocorrida, pela qual perdi minha turma. A resposta é não! Sinto alguma coisa em relação à conclusão da etapa que eles agora o fazem? Sim. Alarme. Alarme porque sei que em breve chegará minha vez de me graduar. Não guardo arrependimentos deles, meus, nada. Na verdade isso é estranho, mas embora eu conviva bem com alguns deles, tenha um bom relacionamento com alguns poucos outros que valem a pena, poucos, confesso, senpre me senti à parte. Me sentia como um soldado solitário que marchava, dirigia-se, entendia tudo de uma forma diferente. Não sou produto da mídia, não sigo tendência impostas pela Rede Globo, não acho que ser piloto é a melhor coisa do mundo. Não gosto e acho ridícula a aviãção militar, feita pra matar, odeio frases clichés ditas por comandantes decadentes, não puxo o saco de pilotos, co-pilotos e afins, não concordo com o sistema brasileiro, tenho estado muito desgostoso com Porto Alegre, sou crítico, ácido, Byron, Baudelaire, sou toda a revolta junta que todos esses infelizes seguidores de alter-egos alheios deveriam ter. Não me agrada O.C., odeio Friends, tenho outra visão a respeito da aviação, que eles jamais terão.

Acho que não podemos ver as coisas como a sociedade nos manda ver. Bom, ruim, rico, pobre... Imaginem, que na visão de alguns dos meus ex-colegas, sou menos piloto porque não me moldei no que deveria ser um grande piloto. Não me formo com eles? Sou menos piloto ainda. Pobres coitados. Seguem tendências acreditando serem a vanguarda, se acham totens da sociedade, mas não passam de mais puro cliché, common-place, ordinariedade. Até para ser um bom medíocre, é necessário ser muito bom, não parecer bom.

Tive um ano para pensar no que seria essa ruptura com a turma que imaginei me formar, e embora meus pais sugerissem, como normal, que seria extremamente dramático, não foi. Minha nova turma é muito melhor, não me importei tanto quanto eu pensei que iria, e somente agora, na eminência da formatura deles é que me importo? Não, mas é somente agora no inverno é que faz sentido. Certa vez me lembro de ter lido um livro do antropologista francês Clotaire Rapaille, que ironicamente escreve livros de auto-ajuda coorporativos, por pura gozação, e os vende muito bem. Nele, Clotaire dizia que o triunfo intelectual das sociedades setentrionais se dava, inclusive em níveis acadêmicos, sobre as sociedades meridionais, pela capacidade de concentração e de observação das chamas dos fogos das lareiras e fogueiras. Uma capacidade auto-avaliativa. Segundo ele, nada melhor para entender a si mesmo do que parar, e somente observar o movimento alheio. Não digo que a crítica seja a terapia, mas a simples observação já basta. Tirem uma folga de si mesmos, não tenham planos, os executem.

Perdi um primo meus aos 13 ou 14 anos de forma muito trágica. Saindo para o colégio de manhã cedo, o pai dele o pediu para que abrisse e fechasse a porta da garagem. O portão caiu em cima da cabeça dele, poupando-lhe o trabalho de a fechar, e décadas de vida. Dias mais tarde, ele morreu no hospital. Fico pensando... Que tipo de frustrações essas criança carregava, se, até o momento da morte, pouco teria podido planejar, executar? Ele acabou não cumprindo os desejos de mãe de talvez graduar-se médico, comprar uma casa enorme para se exibir aos parentes, não teve um carrão, acabou não mostrando boas notas nos boletins, acabou não sendo aplaudido pela sociedade-plebe entediada que dificulta o crescimento e desenvolvimento alheio tentando não ser ultrapassada. Tirar folga da gente, é uma coisa, tirar uma folga dessa vida medíocre de imposições, deveres e obrigações modernas, é mais importante. Tenho a impressão de que, somente as ovelhas-negras das famílias são felizes. Como diz Lizquinha Albrecht, não esperem eu cumprir meu protocolo. Observemos as chamas, o fogo. Boa semana a todos.