Recentemente, há pouco mais de um mês, me vi forçado a "por fim ao sofrimento" do meu cachorro Cocker Spaniel Amadeus, de quem tinha a companhia há 12 anos. Com a mão sobre o peito dele, à medida que percebia os batimentos cardíacos e a movimentação dos pulmões cessando, pus-me a questionar se de fato há uma diferença tão grande entre estar vivo e morto. Segundos.
Sentir aos poucos 12 anos de vida se esmaecendo sem com que pudesse fazer qualquer coisa, choca muito mais do que a morte em si. Das recordações, muito fica, basicamente de momentos tolos e bestas cuja importância jamais teria imaginado. Coisas que muitas vezes me aborreciam, como o choro durante a noite ou os banhos semanais quase semestrais.
Fica, antes de qualquer coisa, a sensação de derrota. A constante derrota. Estar vivo não é manter funcionando nossos órgãos vitais, mas morrer e gastar o funcionamento deles aos poucos. Vida não é constância, a não ser sob o ponto de vista da perda implacável que nos toma pouco a pouco sem que consigamos perceber. Quando percebemos, perdemos nossos hábitos, nossas micro-vidas enquanto a macro se desenrola. Sei que pareço mais louco ainda do que eu mesmo pensava que eu fosse.
Isaac Asimov disse certa vez de que a vida é agradável e a morte pacífica. Mas é a transição que nos é problemática. A diferença entre morte e vida, é a transição, o rito de passagem que não nos permite fazer nada, a não ser, de fato, constatar que estar vivo é morrer aos poucos.
Das coisas engraçadas, ficam milhares. Da sensação de ser uma gota d'agua em um oceano, também.
Nada disso tivesses acontecido, estaria, ainda, criticando a verborréia intelectualmente ofensiva da Luciana Gimenez, ou o simbolismo estúpido do carnaval. Enfim.
Certa vez, há alguns meses, recebi um imeil de uma amiga chamada Carolina de Pelotas/Rs. Não a respondi ainda, ela deva estar possessa. Lembrei-me dela por causa da forma com que ela me disse que Harold Bloom, por sua vez, descreveu os livros da Daniele Steele: Uma diarréia televisiva. Nem todo “romance” de Daniele Steele começa ruim. A idéia pode partir da mesma forma criativa quanto a um impulso criativo de Proust ou artístico de Cézanne, infinitamente superiores à mediocridade de Daniele Steeles e cia. Leia-se Paulo Coelho, livros que contenham "Como", "Queijo", "Hambúrguer", "Mudar" ou "Curar" no título. Umas porcarias. É o fluxo de crescimento, de desenvolvimento que lhes torna, com o perdão da palavra, uma bosta. É a transição.
É com a transição, com o movimento que nos chocamos com nossa insubordinação às forças superiores. É o princípio da incompletude, já defendido pelo cineasta Israelense Abbas Kiarostami. Nada se completa na vida, nada termina, somos de fato, para orgulho de Raul Seixas, metamorfoses ambulantes. É impossível terminarmos algo, ou sermos terminados. Somos eternos, inaniquiláveis. Nas palavras de Jean-Claude Bernardet, quem escreveu um livro analisando a obra de Kiarostami, o principio da incompletude faz com que nunca consigamos firmar os pés em um chão seguro. O que fica, então, não é a resposta a uma pergunta, ou a resolução de algum problema. O concreto na vida, ou na morte, é o não-saber, a hipótese, a possibilidade, a dúvida. O que importa na vida é que ela é uma constante busca, e em buscas não interessa o seu objetivo, mas o seu dinamismo. Não interessa o que nos faz viver, o que interessa é estarmos vivos. O que fica da vida é o movimento de quem não consegue fazer mais nada, enquanto vivo, a não ser, movimentar-se pelo desenrolar do tempo. Boa semana!
Globetrotter
Wednesday, February 16, 2005
Allure!
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