Tuesday, August 31, 2004

De Olímpia... a Pátria Amada Brasil


Bom, aos mais "desantenados" aviso: acabaram os Jogos Olímpicos. Pena...

Bom tenho sido criticado pelos meus colegas de trabalho que, ultimamente, vêm me chamando de "O Odeio" graças à quantidade, digamos... ilimitável de comunidades referentes à pessoas, programas, atividades e/ou qualquer outra coisa que eu, simplesmente, odeio.

Meu ódio tem fins profiláticos. Ele atenua minha loucura e faz com que eu me conheça melhor. Acredito que identificando o que eu não gosto, ou odeio, vai me dar uma maior precisão de tudo aquilo que eu adoro.

O que eu adoro, ou gosto, como queiram, é uma manifestação pura do meu egocentrismo. Nem sei bem se seria uma coisa de ego, mas até de ID. Meus gostos são impulsivos. É bem verdade que gosto se aprimora, se refina ou, sejamos sinceros, se piora... O que gosto ou odeio, é meu. Não gosto de nada que me faça pertencer a alguma turma, grupo, culto, credo, panela... enfim. Gosto do que me faz mais próximo (que brega) de mim mesmo.

Por falar em Olimpíadas, gostos e “breguices e cafonices”, minha convivência com pessoal de marketing, propaganda e mídia tem me feito refletir sobre alguns conceitos que passo a lhes elencar:

O poder da mídia é ilimitável. Puseram tanta pressão na "Negrinha Saltitante", leia-se Daiane dos Santos (fantástica), que ela não agüentou e desmoronou justamente na hora que, irônicamente, não deveria. Alexander Nemov, teve sua medalha - merecida - de ouro roubada. É a vida.

Em um país de bundas célebres e peitos artificiais, somos escravos de um poder burro que nos golpeia, sem escolha, nos empurra "goela" abaixo tudo que sem bem certeza, não sabemos se gostamos ou não, mas, nos acostumamos à mediocridade pouco permeável de nossa índole emasculada.

Vamos à parte divertida. Aguardando o início dos jogos, me deparei com uma espécie de efeméride artística tão dramática, quanto minha fraca prosa. Virei fã de programas evangélicos. Vai dizer que não é o máximo? Notei uma certa similaridade de produção, em relação à música, estilo e fontes de abertura que não restam dúvidas: Parece aqueles vídeos da Disney, os promocionais das operadoras de turismo e das excursões de "aborrecentes". Algo me diz que o desaquecimento do turismo "Disneyóide" levou os pobres dos "tios" camera men ao mercado evangélico, afinal de contas: Só Jesus Salva! Aleluia irmãos!

Bom por falar em vinhetas... péssimas as vinhetas da Globo, como tudo que resta. Só a Ana Paula Padrão que presta naquilo. Até as vinhetas da Band estavam bem melhores. Algo me diz que nem mais brega, coisa que sempre foi, Hans Donner tem conseguido ser depois de ter mais um filho com a moça, lembra... da bunda célebre e peito de "çilikonny" como diria nossa já eterna Solange. Retiro o que disse: ele continua muito cafona. Se ainda te restam dúvidas, já esqueceste de tantas aberturas de novelas bregas: Fera Ferida, Esperança, Olho no Olho (campeã) entre outras?

Bom, ante tamanha constatação, tenho que dizer: As aberturas da Globo têm me lembrado as aberturas de filmes pornô. Uma coisa meio cafona, cheia de clichés, sem capricho, meio noir. Só faltam nomes de atores e atrizes pornôs com aqueles nomes estranhíssimos como: Tamara de Limbley, Johnny Cavates, Bianca California, Jessica "Heads" e Marley de Bianci. Olhem bem o que eu estou dizendo: somente faltam OS NOMES, porque de putas (com o perdão da palavra) a Globo está cheia.

As aberturas, talvez sejam até mesmo um faux pas, um ato falho de uma emissora que quer sair do armário e dizer: "somos uma escola de modelos-apresentadoras-dançarinas-e-atrizes sem talento e sem inteligencia que na verdade são putas. Qual o problema?". De fato, nenhum, em um país onde o estudo não nos revigora e somente a bola e a bunda nos levam adiante. Talvez Goethe estivesse errado. Não é a cada passo que se vai mais adiante, mas a cada ml de silicone e de bunda e a cada chute de uma bola.

Por onde estará Edir Macedo? Provavelmente (trans)vestido de Mickey em sua personal Disneyland - a Evangelicoland.

Thursday, August 26, 2004

Mergulhado na leitura de um novo livro, mas do mesmo autor - que me persegue, ou vice-versa-, acredito ter entendido um dilema que há muito me atormentava, e quem diria... eu não sabia.

Tá certo que a conclusão que tirei do assunto que passo a lhes escrever, tem um certo tom de je ne sais quoi lisérgico (eu estou brincando, evidentemente), mas no mínimo pude contar com o auxílio de algum xamã.

Lá estava eu, debruçado sobre a leitura de How Can Proust Change Your Life quando, me deparo com o quarto capítulo, intitulado How to Suffer Succesfully (Como sofrer exitosamente, ou com êxito). Foi então que percebi como eu NÃO estava sofrendo como deveria. Tivesse eu sofrendo em um grau mais agudo, talvez não tivesse notado. O assunto, quem diria: minha escolha profissional, há 20 anos decidida. De fato, havia algo que não fechava. Não me refiro à minha escolha, mas a relação da minha escolha com a minha pessoa. A verdade, é que sou muito mais diferente da maioria dos pilotos que eu conheço. Mesmo assim, minha dúvida pairou no ar (irônico, não) por alguns dias. Minto. Foi quase duas semanas.

Foi com um insight, navegando no já célebre "yORKUT", que me dei conta. Há muito as coisas não fechavam assim, tão perfeitamente, com tanto sentido em minha já deteriorada percepção. (Que kitsch, super Paraguaio este comentário... talvez uma herança genética Mexicana que me fora escondida em um passado não muito distante...) Voltando à "faca" fria...

Antes eu me classificaria como um esquizofrênico saudável. Mas acabei descobrindo que meu problema não é esquizofrenia... é pluralidade. Começei a reparar as comunidades de meus amigos-colegas-conhecidos de faculdade de Ciências Aeronáuticas. Tirando raras exceções, eu sou o que mais tem comunidades cadastradas e nunca havia percebido quão pluriformes meus interesses eram. Nem digo que sou eclético. É um termo muito estreito para tamanha amplitude, ou loucura.

Gosto de Mies Van der Rohe, com o mesmo gosto que gosto de falar de flaps de aviões. Interesso-me por psicanálise e psiquiatria como me interesso por um procedimento de instrumento. Sei tanta administração quanto sei teoria de vôo (não muito, de fato, mas sei). Vejo um procedimento de craniotomia com a mesma excitação de alguém que voa pela primeira vez. Gosto tanto de ler quanto gosto de voar. Gosto tanto de literatura quanto gosto de aeroportos, semiótica, malas, bagagens, cheiro de papel, cheiro de livro, turbinas, hotel.

Me perdi algumas vezes de caminho. Hoje, e somente hoje, sei que me perdi em uma tentativa frustrada de reunir tudo em uma ópera só. É como fazer uma ópera com um maestro surdo. Não adianta gritar... o maestro não vai ouvir, é melhor ler a partitura, ou um bom livro. Livros de auto-ajuda não servem. São ruins. Eles dão o peixe, mas não ensinam a pescar, a pensar. Partem do "pré-suposto" de que somos todos burros, com baixa capacidade cognitiva.

Por falar em ópera, por que não falarmos de uma ópera que deu certo? Não tivesse sido deportado do Reino Unido, jamais teria sido introduzido à Alain de Botton. Perdido, sozinho no Aeroporto de Gatwick, vejo um livro que me pula às vistas. Ele me chama, me grita, não sou eu que o chamo.

O autor, quem diria, é filósofo, leia-se Botton. Mais um interesse que passei a ter, a entender, a gostar, a discutir e a crescer com ele. Me ensina a pensar em cadeia, com razão, com motivo. Como a vida é obvia, não? Somos nós os cegos. Os que enxergam. Os interesses não são escolhidos. Eles nos escolhem, nos agraciam. Eles saltam em nossos colos como livros saltam de pratilheiras. Pra que sofrer exitosamente, ou existencialmente. Que tal continuarmos a viver, aguardando apenas, que os fatos e gostos, infinitamente menos "mixas" do que nós, saltem sobre nós. A dúvida e a incerteza são bem mais divertidas, mais instrutivas. É...boa receita de vida: mais literatura, menos Prozac. Boa semana!

Friday, August 13, 2004

Minha semana tem sido estranha. Nem boa, nem ruim. Mas estou torcendo pra que ela passe.

Estou terminando de ler um livro que, talvez, possa entrar pra lista dos livros que mais me tocaram em toda a minha vida. O livro foi escrito por um Suiço, francófono, cujo dom da escrita manifestou-se em, adivinhem, Inglês. Mais internacional impossível. O livro é de filosofia, fala de viagens, amores, artes e dores. Em um dos capítulos, onde o autor, chamado Alain de Botton, discorre sobre o simbolismo exercido por locais que subentendam ou possam dar a idéia de viajar, fico imaginando o porquê tamanho encanto. Mas essa sensação espontânea surge em mim. Urge em mim.

Obviamente, a viagem, os motivos por que ela foi feita ou está sendo planejada, diferem tanto quanto diferem aqueles que a executam. Viajar pra mim, é fugir do mediocre, do mediano. A palavra medíocre vem do latim e quer dizer médio. Viajar é exatamente isso: Fugir do normal, do comum, do ordinário; dos medianos.




Como falei no início, tenho me sentido estranho. Um estranho no ninho, como um estrangeiro em uma terra que não lhe pertence. Percebi isso quando vi este pôr-do-sol. Ele me pareceu, digamos, diferente. Me chamou a atenção, coisa que não faria, tivesse eu me sentindo normal.

Alain conta no livro que, certa vez, Baudelaire - um poeta Francês (suuuuuper positivo, diga-se de passagem [estou sendo irônico, caso não tenham notado]) do século XIX - intrigado com a imagem de Londres que lhe perseguia, decidiu organizar seus "mijados" e partir em direção a mesma. Antes de pegar o trem, Baudelaire decidiu passar antes em um restaurante típico "Bretão" e comer algo. Ele ficara tão chocado com que vira, tão triste com o desapontamento, que decidiu retornar para casa e não mais ir a Londres.

Acho interessante, também, o paradoxo entre a negatividade e até por que não dizer, obscuridade de Charles Baudelaire e a bela forma com que ele escreve e mais especificamente fala de beleza no poema que transcrevo a seguir:



BEAUTY

Conceive me as a dream of stone:
my breast, where mortals come to grief,
is made to prompt all poets' love,
mute and noble as matter itself.

With snow for flesh, with ice for heart,
I sit on high, an unguessed sphinx
begrudging acts that alter forms;
I never laugh, I never weep.

In studious awe the poets brood
before my monumental pose
aped from the proudest pedestal,
and to bind these docile lovers fast
I freeze the world in a perfect mirror:

The timeless light of my wide eyes.


Não consigo acreditar, como pode um poeta destes, ter tomado um atitude tão burra. Creio piamente (fielmente segundo alguns dos participantes do BBB), que a beleza é produto da diversidade e a feiúra, da intolerância, do medo do diferente, da fobia ao novo. Intolerância cultural, ou seja lá qual ela for, é a pior das feiúras: a burrice.

Quanto ao de Botton perco meus pensamentos em sua descrição que diz que para um viajante recém chegado a Londres, a mais medíocre das tardes para um Londrino pode parecer a mais fantástica delas para um visitante ou para um turista. Pensando nisso, acho que não há nada pior para a beleza, do que o cansaço e o estresse. O estresse do pior tipo. O do dia-a-dia. Não fiquem estressados: É feio. Boa semana.



Friday, August 06, 2004

Tenho relido meus humildes posts anteriores com tamanha vergonha que me permite concluir quão internacional eu sou. Sou dramático como um Mexicano, escrevo na língua de Camões - bela e inculta nas palavras de Pessoa - e sou tão kitsch quanto um autêntico Paraguaio. (Perdões à parte).

Ultimamente com o mais novo advento da internet, o tal de orkut, confesso ter sido tomado por uma onda saudosista que não condiz muito com a praticidade e modernidade deste "abobático-internáutico" que vos escreve. Sinceramente, tenho encontrado pessoas que foram minhas colegas na 1a série do 1o Grau e que dizem sentir muita a minha falta, apesar de, pasmem, não saberem meu nome. Falta esta, confesso novamente, não recíproca.

De fato, eu, anteriormente niilista ao que se refere aos assuntos relacionados ao passado, venho tendo vontade de ter algumas pessoas que eu conheci há muito tempo, mais por perto. Sim, um pouco é uma fresta voyerística cujas características, espero eu, desapareçam ao término desta minha "enfermidade".

Procuro pessoas e não acho, acho outras que não estava procurando e cujo relacionamento, bem, digamos, é totalmente dispensável. Mas adiciono-as mesmo assim. Sim, quanto à saudade, sinto de muita coisa. Sinto saudade basicamente do colégio enquanto unidade, não do prédio em si, mas basicamente das pessoas e do clima, da atmosfera que éramos capazes de criar ao nosso bel prazer. Sinto saudade das matadas de aula no 5a Avenida Center, dos Milk-Shakes do Rib's, do Barzinho - caindo aos pedaços - da Ramiro Barcellos onde eu quase todos os dias comprava chicletes antes de chegar, mais um dia, atrasado no colégio.

Sinto saudade das fofocas envolvendo professores, das aulas de artes, do grupo. Sinto mais falta das coisas que foram, simplesmente se foram sem com que possamos, eu ou qualquer outra pessoa, ir atrás. Sinto falta do olhar da Minda antes de me jogar um balde d'água na famosa sala do teatrinho onde havia o piano.

- O qui você tá fazendo aqui minino?
- Vim tocar piano, a Margit me deixou...
- A é? Vai embora daqui, a Margit não manda nada aqui, quem manda sou eu fora (enquanto me empurrava com uma vassoura "imaculada" como nossa própria Minda.

Lendo um livro de um cara fantástico chamado Allain de Botton, em um dos capítulos ele analisa a questão da percepção em relação ao sentimento e à arte. Me faz pensar um pouco na questão do passageiro, que acaba induzindo ao passado. Dependendo da perspectiva, para o corpo docente e de funcionários do colégio, éramos todos passageiros. Para nos, eles. Fico imaginando como deve ser, trabalhar durante quarenta anos para um colegio, para no fim de uma vida de dedicado trabalho ter de concreto em sua vida a simples lembrança de que tudo é passageiro, ter a lembrança de imagens, nada mais. Imagens do Rib's, imagens da "hora de moral e cívia", imagens de alunos que por muitas vezes seus nomes não são lembrados. Não é só o tempo que é perecível. Somos todos.

Penso, o que não diriam os cansados olhos do senhor Feijó das Pipocas, ao me ver comprar suas pipocas que décadas antes, havia vendido à minha mãe. Quanto da vida os olhos daquele homem gostariam e quanto ele, de fato, poderia ver? Do seu Feijó, hoje, acredito haver somente a lembrança. Conseguimos dizer à ele tudo o que ele conseguiu nos dizer?

Quanto ao passageiro, penso que até mesmo essa questão, em parte, influenciou o amor à escolha da minha profissão: piloto. Tudo na vida é passageiro, exceto cobrador, motorista de ônibus e de avião. Somos exatamente iguais. Teremos de lembrança de nosso trabalho, de nossa vida, a mesma visão fragmentada do reles pipoqueiro e da reles faxineira. O que meus cansados olhos daqui a 50 anos dirão a alguem capaz de notar meus já velhos olhos... O que eles já terão visto, o que gostariam de ainda poder ver, rever? Tempo. Para mim só resta minha subordinação às forças divinas. Como será? Veremos.